Empreender na maturidade: o movimento que está virando tendência
Até pouco tempo atrás, ao chegar aos 50 anos muitos acreditavam que o melhor da vida profissional já tinha passado. Mas, o que se observa, e com mais ênfase, na última década é exatamente o contrário: para muita gente, esse é o início mais autêntico da jornada profissional. De acordo com Leandro Lages, especialista em psicologia transpessoal, enquanto o mercado corporativo continua com dificuldades para aproveitar o potencial desses profissionais -que frequentemente se sentem descartados ou discriminados nas empresas -, o empreendedorismo surge como alternativa. “E não se trata de recomeçar do zero, mas de dar novo sentido à bagagem acumulada ao longo de décadas”, enfatiza.
Os números reforçam essa mudança de perspectiva. Dados do Relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM), 13,3% dos novos negócios no Brasil no ano passado, foram abertos por pessoas com mais de 55 anos. Já um levantamento feito pelo Sebrae com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o país tinha, no fim de 2024, cerca de 4,3 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais. “Isso é muito significativo” alerta Lages ao destacar que o número representa 14,3% dos donos de pequenos negócios — um crescimento de 53% em relação a 2012. “Quer dizer, em pouco mais de uma década, praticamente dobrou o empreendedorismo entre os 60+”, afirma o especialista.
Esse crescimento não é apenas quantitativo. Estudos internacionais (como os realizados por instituições como MIT e Northwestern University) indicam que empreendedores acima dos 50 anos têm até duas vezes mais chances de sucesso do que os mais jovens. Experiência conta. E muito.
Na prática, segundo análise de Lages, isso reflete uma convergência entre mudanças no mercado, aumento da longevidade e o desejo por uma vida mais alinhada aos próprios valores. “Muitos dos meus clientes, nesta faixa, relatam exatamente isso: após décadas em estruturas rígidas, sentem a necessidade de recomeçar com mais autonomia e autenticidade”, pondera ao frisar que o empreendedorismo, nesse contexto, surge como uma forma de reposicionamento, trazendo benefícios adicionais como flexibilidade, propósito e liberdade para construir algo com identidade.
Mudança com maturidade
A advogada e gestora de patrimônio Juliana Bicudo Mollet, 50 anos, é um exemplo de reconversão profissional. Morando atualmente na França, Juliana conta que esta reconversão vai além do quesito profissão, mas estende-se à vida. Se considerando em uma posição privilegiada, a advogada observa que para ela é muito mais fácil do que para a maioria das pessoas que busca uma mudança profissional na maturidade, “pois não preciso ganhar o pão”, admite a brasileira que já está na Europa há dez anos, tendo ido por conta de seu marido ser francês. “Meu processo de mudança de carreira iniciou há três anos, quando me decidi que não voltaria mais para o Brasil”, conta Juliana. Assim, mergulhando mais fundo na cultura europeia, a advogada por formação começou a buscar uma nova alternativa e decidiu empreender como gestora de patrimônio. “Além da necessidade de me readaptar a realidade de ser uma expatriada em um país que não reconhece meu diploma de advogada, eu sempre tive uma alma curiosa e empreendedora e nessa fase da vida creio que buscamos não apenas uma atividade profissional, mas algo que seja congruente com nossos valores e sonhos”.
Já a terapeuta Cristina Lopes, 56 anos, resolveu empreender atendendo o que chama de “um chamado da alma”. Na primeira metade da vida, segundo ela, sentimos a necessidade de formar família, comprar casa, carro. “ou seja, questões concretas, materiais”. Na segunda metade, pensamos que existe um fim e “ganhar a vida”, tem outro significado, “ao invés de ganhar dinheiro, sentimos a necessidade de ganhar qualidade de vida e como o trabalho exige uma boa parte do nosso tempo diário, penso que agora quero trabalhar em algo que eu gosto, que vejo sentido e não apenas pelo dinheiro”, explica a terapeuta.
Redes sociais são um dos maiores empecilhos
A digitalização do trabalho e o acesso facilitado à tecnologia são aliados dessa transformação, embora também representem um desafio. O obstáculo principal, no entanto, não é técnico: é interno. “A exposição nas redes sociais, a comparação constante e a ideia de que só existe um jeito de se comunicar digitalmente geram insegurança. Mas a verdade é que há outros caminhos possíveis”, ensina Lages.
O empreendedor 50+ carrega vantagens únicas, muitas vezes invisíveis para ele mesmo: uma trajetória consolidada, redes de contato fortes, visão estratégica e uma dose valiosa de pragmatismo. Isso cria um terreno fértil para negócios de alto valor agregado como consultorias, mentorias, negócios locais com identidade própria ou projetos autorais e de impacto social, elenca o psicólogo.
Para ele, o que falta, muitas vezes, é apoio para traduzir tudo isso em um modelo de negócio viável e conectado com o momento de vida atual. “Empreender depois dos 50 é uma escolha corajosa — e cada vez mais comum. É um caminho que pede alinhamento interno antes de qualquer plano externo. E quando isso acontece, o que vemos é um novo tipo de empreendedor: menos ansioso, mais verdadeiro, mais consciente”.
Fonte: Carmen Carlet – Conteúdo e Conexão
Leandro Lages – Foto: Marina Blanguer
