Mulheres são protagonistas em apenas 10% dos shows de festivais de música instrumental no Brasil

Embora a música instrumental brasileira seja reconhecida internacionalmente pela diversidade, inovação e excelência técnica, os palcos dos festivais do gênero seguem majoritariamente ocupados por homens. É o que revela a pesquisa inédita “O Palco que Nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental”, desenvolvida pelas pesquisadoras catarinenses Valentina Bravo e Caroline Cantelli. O levantamento aponta que mulheres protagonizam apenas 10% dos shows apresentados em festivais de música instrumental no Brasil. Quando o recorte considera mulheres negras, o índice despenca para apenas 1%.

Realizada entre junho de 2025 e maio de 2026, a pesquisa analisou a programação de festivais de música instrumental de diferentes regiões do país, cruzando dados quantitativos com entrevistas em profundidade realizadas com 12 instrumentistas, compositoras e arranjadoras brasileiras de diferentes gerações e territórios. O estudo investigou quem ocupa os palcos, quais instrumentos essas mulheres tocam, quais espaços lhes são destinados nas programações, como questões de gênero e raça atravessam suas trajetórias profissionais e as barreiras estruturais e violências que sofrem durante a sua trajetória 

A metodologia envolveu o mapeamento de line-ups de 28 festivais nacionais dedicados à música instrumental, totalizando 522 shows analisados e 2.369 artistas identificados. A pesquisa buscou reconhecer quem ocupava posições de liderança nos projetos musicais apresentados. Foram considerados shows protagonizados por mulheres aqueles assinados por instrumentistas, compositoras ou arranjadoras à frente de trabalhos autorais ou feats – quando são convidadas especiais de outros shows. O levantamento também categorizou raça, região e formação dos projetos, com o objetivo de compreender as desigualdades estruturais presentes no circuito instrumental brasileiro.

Além dos índices gerais de desigualdade, a pesquisa identificou mudanças recentes na presença feminina nos festivais analisados. Em 2024, metade dos eventos mapeados contou com ao menos uma mulher protagonista em sua programação. Já em 2025, esse percentual subiu para 75% dos festivais, apesar de muitos deles só contarem com a participação de uma mulher ou um grupo feminino. Embora os números ainda revelem um cenário de forte desequilíbrio, as pesquisadoras apontam que o avanço demonstra o impacto da mobilização de artistas, coletivos e produtoras culturais que vêm reivindicando maior espaço na música instrumental brasileira. O crescimento também dialoga com discussões mais amplas sobre gênero que atravessam diferentes setores da sociedade e têm pressionado instituições culturais, curadorias e festivais a rever práticas historicamente excludentes.

Para Valentina Bravo, idealizadora e pesquisadora do projeto, os números evidenciam um apagamento histórico que ultrapassa a questão da representatividade. “Quando começamos a cruzar os dados, ficou evidente que não estamos falando apenas de ausência, mas de uma estrutura que historicamente restringe o acesso das mulheres aos espaços de criação, liderança e reconhecimento na música instrumental. Existe uma naturalização dessa desigualdade, como se determinados instrumentos, linguagens e posições ainda pertencessem aos homens”, afirma.

Caroline Cantelli, pesquisadora e coordenadora de comunicação do projeto, destaca que a pesquisa também revelou o impacto subjetivo desse cenário nas trajetórias das artistas entrevistadas. “Muitas mulheres relataram experiências de isolamento, questionamento técnico constante e dificuldade de permanência no mercado. Ao mesmo tempo, encontramos trajetórias extremamente potentes, construídas com excelência artística, coletividade e resistência. São mulheres que seguem criando, mesmo diante de estruturas que frequentemente tentam invisibilizá-las“, diz.

As entrevistas qualitativas realizadas pelo projeto reuniram nomes como Léa Freire, Camila Alves, Larissa Umaytá, Suzete Santos, Natália Livramento, Mari Leonel e Denise de Castro. Os relatos abordam temas como formação musical, mercado de trabalho, maternidade, racismo, desigualdade de oportunidades e ausência de referências femininas nos palcos e na história da música instrumental brasileira.

Os dados dialogam com outros levantamentos recentes sobre desigualdade de gênero na indústria da música no Brasil, que apontam baixa participação feminina em festivais, direitos autorais e posições de liderança no setor.

Mais do que produzir um diagnóstico, “O Palco que Nos Deve” propõe uma reflexão sobre quais artistas são legitimadas historicamente como referências da música instrumental brasileira — e quais seguem à margem dessa narrativa. Ao reunir dados, memória e escuta, o projeto aponta que ampliar a presença feminina nos palcos passa também por transformar curadorias, políticas culturais, processos formativos e os próprios imaginários construídos sobre virtuosismo, composição e liderança musical.

Da esquerda para a direita: Natália Livramento, Ana Claudia de Oliveira Segura, Caroline Cantelli, Valentina Bravo, Angela Coltri, Mayara Araújo e Giovanna Dutra. Foto: Lia Viegas

Plataforma busca ampliar visibilidade de mulheres da música instrumental popular brasileira
Mais do que uma pesquisa, o projeto se posiciona como uma plataforma de fomento e visibilidade para instrumentistas, compositoras e arranjadoras da música instrumental popular brasileira. Nos canais oficiais do projeto no YouTube e Instagram, foram publicados perfis das 12 artistas entrevistadas, além de trechos das conversas, reflexões sobre mercado musical e conteúdos audiovisuais que ajudam a documentar e ampliar a circulação dessas trajetórias.

A iniciativa busca atuar diretamente sobre a invisibilidade identificada pela própria pesquisa, criando espaços de memória, reconhecimento e acesso para artistas que historicamente ocupam menos espaço na narrativa oficial da música instrumental brasileira. O material segue disponível gratuitamente ao público e reúne relatos sobre criação artística, formação musical, desafios profissionais e perspectivas sobre o futuro da cena instrumental no país.

FICHA TÉCNICA
Pesquisa e Produção Executiva: Valentina Bravo
Pesquisa e Coordenação de Comunicação: Caroline Cantelli
Curadoria: Angela Coltri
Consultoria de pesquisa: Mayara Araújo
Validação de Resultados: Dani Ribas e Ana Cláudia de Oliveira Segura
Acessibilidade: Empresa Inclua
Designer: Lídia Brancher
Assessoria de Imprensa: Marina Sartori

Fonte: Marina Sartori – Assessoria de Imprensa
O projeto “O Palco que Nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental” mapeou festivais em todo o país para quantificar e analisar a participação feminina em espaços historicamente ocupados majoritariamente por homens. Foto: Lídia Brancher

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