Brasil cria recomendações para reduzir impacto ambiental da diálise
A nefrologista gaúcha Dra. Cinthia Vieira, gestora da Clinefro, está entre os autores de um novo documento que estabelece recomendações para tornar a assistência renal mais sustentável no Brasil. Desenvolvido pelo Comitê de Nefrologia Sustentável da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), do qual a médica é coordenadora, o trabalho foi publicado no Brazilian Journal of Nephrology e propõe medidas para reduzir o impacto ambiental dos serviços de assistência renal e prepará-los para os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
A necessidade de mudanças fica evidente quando se observa o impacto ambiental da terapia renal substitutiva. Uma única sessão de hemodiálise de quatro horas utiliza, em média, 500 litros de água. Ao longo de um ano, cada paciente pode consumir cerca de 78 mil litros, além de gerar aproximadamente 323 quilos de resíduos sólidos. O tratamento também demanda elevado consumo de energia elétrica.
“Precisamos olhar para a sustentabilidade como parte da própria qualidade da assistência. É possível reduzir desperdícios e utilizar melhor os recursos sem comprometer o cuidado com o paciente. Pelo contrário, serviços mais eficientes e preparados também contribuem para uma assistência mais segura”, afirma a Dra. Cinthia.
Sustentabilidade também pode reduzir custos
Embora ainda seja um tema pouco debatido no Brasil, a chamada Nefrologia Sustentável vem ganhando espaço. Diferentemente do que acontece em outros setores, onde práticas ambientais podem representar aumento de custos, na diálise muitas ações sustentáveis também geram economia.
O reaproveitamento da água rejeitada pelos sistemas de tratamento, o uso de fontes sustentáveis de energia, como a solar, o uso racional de insumos e a melhor gestão de resíduos estão entre as medidas capazes de diminuir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, reduzir custos operacionais dos centros de diálise.
“É uma situação em que todos podem ganhar. Reduzir desperdícios significa utilizar melhor os recursos disponíveis, diminuir o impacto ambiental e contribuir para a sustentabilidade econômica dos serviços, sem comprometer a qualidade da assistência ao paciente”, explica a nefrologista.
A discussão não envolve apenas o impacto provocado pelos serviços de saúde. As mudanças climáticas também aumentam a vulnerabilidade das pessoas com doença renal crônica e, especialmente, daquelas que dependem de terapia de substituição renal.
Ondas de calor podem aumentar o risco de desidratação, lesão renal aguda e cálculos renais. Já eventos climáticos extremos podem provocar interrupções no fornecimento de água e energia, além de comprometer a logística e o acesso aos serviços de saúde, estruturas essenciais para pacientes que dependem regularmente da diálise.
“Estamos falando de pacientes que precisam de uma estrutura de atendimento que funcione continuamente. Eventos extremos podem comprometer o acesso à água, à energia e até o deslocamento até os serviços de saúde. Por isso, sustentabilidade na nefrologia também significa tornar a assistência mais preparada e resiliente”, destaca a Dra. Cinthia.
Recomendações para a nefrologia brasileira
Criado em 2023, o Comitê de Nefrologia Sustentável trabalhou durante dois anos na elaboração das recomendações. O documento reúne diretrizes relacionadas à educação e conscientização, monitoramento de indicadores ambientais, gestão de resíduos, uso eficiente de recursos, planejamento de contingência climática, prevenção da doença renal e transplante, inovação tecnológica e certificações de sustentabilidade.
As recomendações foram discutidas e aprovadas durante a 2ª Convenção da Diretoria da Sociedade Brasileira de Nefrologia e de suas Regionais, alcançando 98,5% de concordância.
Para a Dra. Cinthia, a incorporação dessas práticas representa um compromisso que vai além da preservação ambiental. “Sustentabilidade é também pensar na capacidade de continuarmos oferecendo uma assistência segura e de qualidade diante de um cenário climático que está mudando. Precisamos cuidar dos pacientes de hoje sem deixar de pensar nas condições que teremos para cuidar das próximas gerações.”
Referência técnica
As recomendações do Comitê de Nefrologia Sustentável da Sociedade Brasileira de Nefrologia foram publicadas no artigo “Recommendations of the Brazilian Society of Nephrology for Sustainable Nephrology in Brazil”, no Brazilian Journal of Nephrology.
A publicação pode ser acessada através do link: https://www.bjnephrology.org/en/article/recommendations-of-the-brazilian-society-of-nephrology-for-sustainable-nephrology-in-brazil/
Fonte: Assessoria de Imprensa – Buda Comunicação
