Especialista alerta para afastamentos do trabalho por transtornos mentais

O número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais cresceu mais de 400% no Brasil desde a pandemia e atingiu 472.328 licenças em 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O Rio Grande do Sul registrou 37.004 afastamentos por saúde mental com os diagnósticos de depressão e ansiedade alcançando 18.066, o que representa 48% do total. O aumento das doenças mentais é expressivo se comparado com 2020 – auge da crise sanitária da Covid 19 -, quando foram registrados 91.607 afastamentos. De lá para cá, os números vêm subindo e dispararam em 2024. No Rio Grande do Sul, por exemplo, os casos de depressão e ansiedade cresceram, também,  por conta da enchente que assolou o estado em maio.  Leandro Lages, especialista em psicologia transpessoal e negócios, observa que os desafios não se restringiram ao período da pandemia. “Embora tenhamos deixado para trás o pico da crise sanitária, os anos de adaptação ainda produzem impactos práticos e emocionais, levando trabalhadores a apresentarem sintomas de estresse crônico ou burnout, intensificados pela incerteza econômica e pelos desafios de retornar ao trabalho presencial ou híbrido”, avalia, ao elencar que os gaúchos também enfrentam os desafios pós enchente.

O aumento não se limita aos afastamentos. Também cresce o índice de demissões voluntárias em 40% das empresas entrevistadas, segundo dados do relatório Tendências de Gestão de Pessoas 2025, produzido pelo Ecossistema Great People & GPTW. A saúde mental pode estar impactando esse movimento de saída, mas não se trata apenas disso. Segundo o especialista, as raízes vão além da saúde mental, elas dizem respeito à insatisfação e à reavaliação da esfera profissional em nossas vidas. “Parece que o trabalho vive uma crise de sentido. Os profissionais, mergulhados em uma normose, têm adoecido ano após ano”, alerta.

Empresas não sabem como tratar a questão
As empresas são parte do problema, mas também as principais afetadas. O relatório Tendências de Gestão de Pessoas 2025, mostra que elas reconhecem a gravidade do tema, embora aparentem ter pouca capacidade de lidar com ele na prática. “Enquanto 99% consideram a saúde mental/emocional um tópico relevante, apenas 59% destinam orçamento específico para isso. E, quando questionadas sobre as principais iniciativas em prol da saúde mental, o top 3 se resume a palestras e rodas de conversa, treinamento das lideranças e terapia online como benefício”, destaca Lages ao concluir que ainda é muito pouco.

Diante desse panorama, talvez a grande questão seja repensar mais a fundo o papel do trabalho na vida das pessoas, aponta Lages. “Em vez de limitar soluções a um orçamento maior ou ações pontuais de bem-estar, é preciso rediscutir os modelos de trabalho de maneira coerente com os novos tempos”, afirma. Afinal, se a crise de sentido persiste, investir em programas ou treinamentos, isoladamente, não impedirá que o ciclo de insatisfação se perpetue. “Resta saber se estamos dispostos a reconceber a forma de trabalhar para que faça sentido, tanto para os indivíduos quanto para as organizações” finaliza.

Fonte: Carmen Carlet – Imprensa
Leandro Lages – Foto: Marina Blanguer

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.