Luíza Brunet e Fayda Belo emocionam o público na Cidade da Advocacia com relatos pessoais sobre violência contra a mulher
A Cidade da Advocacia teve em seu segundo dia um dos painéis mais esperados desta quinta edição. Nesta quarta-feira (5/8), o maior evento gratuito para advogados no país reuniu, no palco principal montado no Cais Embarcadero, em Porto Alegre, o presidente da OAB/RS, Leonardo Lamachia; a vice-presidente da OAB/RS, Claridê Chitolina Taffarel; a advogada especialista em violência de gênero, direito antidiscriminatório e feminicídios Fayda Belo; e a empresária, atriz e ativista Luiza Brunet. Com o tema “Mulheres que inspiram: carreiras, preconceito, violência de gênero e a construção de novos caminhos”, a atividade foi mediada pela jornalista Cristina Ranzolin.
Claridê abriu o painel citando o feminicídio como “uma chaga da sociedade brasileira”. Ela lembrou que a OAB/RS tem feito o seu papel ao criar, por exemplo, o programa OAB Vai à Escola. “É uma legião de advogadas e advogados, em todo o Rio Grande do Sul, falando sobre a violência de gênero. É somente por meio da educação que poderemos construir uma cultura de paz e desconstruir a cultura da violência”, afirmou. O comitê Basta de Feminicídios também tem atuado nessa questão. “Estamos dando nossa parcela de contribuição para a construção de uma sociedade que não mate suas mulheres“, ressaltou.
Ao abrir o painel, o presidente da OAB/RS, Leonardo Lamachia, destacou o compromisso institucional da Ordem com o enfrentamento à violência de gênero e à defesa dos direitos das mulheres. “Em meu discurso de posse, em fevereiro de 2025, afirmei que a violência de gênero e os feminicídios representam uma das maiores chagas da sociedade brasileira. Infelizmente, desde então, assistimos ao agravamento dessa realidade. Foi por essa razão que idealizamos este painel: para promover um debate qualificado e reafirmar a contribuição da OAB/RS, como entidade representativa da sociedade civil, na construção de soluções e no fortalecimento da conscientização sobre esse tema tão urgente. Não poderíamos reunir vozes mais representativas para esta discussão. E, no que depender da OAB/RS, seguiremos firmes na defesa de uma sociedade que diga, de forma inequívoca: basta de violência contra a mulher. Basta de feminicídios.”
Mediação do painel coube à jornalista Cristina Ranzolin
Cristina Ranzolin, comunicadora com uma sólida trajetória na televisão gaúcha, deu início à conversa com as duas convidadas contextualizando sua composição familiar, repleta de advogados, e depois tocou no assunto principal do painel ao citar o número de 46 feminicídios no Estado, neste ano. E então abriu espaço para Luiza Brunet começar a sua fala diretamente no ponto mais delicado de sua vida, os abusos reiterados que sofreu, emocionando o público.
Violência doméstica
Aos 64 anos, Luiza compartilhou uma trajetória marcada pela superação. Ainda na infância, enfrentou situações de violência doméstica e, posteriormente, sofreu abuso enquanto trabalhava para ajudar a família. Apesar dos traumas vividos, seguiu em frente, construiu sua carreira de imenso sucesso e buscou novos caminhos. Já na vida adulta, voltou a enfrentar um relacionamento abusivo, mas rompeu o ciclo de violência ao denunciar o agressor, que foi condenado. Sua história é um exemplo de coragem, resiliência e da importância de buscar proteção e justiça. “A dependência emocional é muito difícil de ser rompida. Eu tenho a minha independência financeira, mas e as mulheres que não têm?”, questionou.
Foi neste ponto que Fayda entrou no debate. Ela aconselha as mulheres a terem o controle do seu dinheiro para poderem ir embora, caso precisem. “Quando eu era nova, enquanto mulher negra que viveu num bairro pobre, eu olhava aquilo e achava muito injusto. Aí pensava: vou ser doutora e vou mudar o Brasil. Diziam para fazer concurso para ser juíza, mas sempre quis ser advogada”, esclareceu, tendo em vista defender outras mulheres.
A vida de Fayda foi semelhante à de Luíza, com “espaço de poder para o homem, e o espaço do silêncio, às mulheres”. Essas condições são fruto da forma como nasceu o Judiciário e as leis. “Até 2005 ainda havia o termo ‘mulher honesta’. O Ministério Público, a polícia e o Judiciário tiveram que ser educados“, afirmou. “Por isso, ainda hoje as mulheres acham que não vão acreditar nelas e que o homem é assim mesmo, é áspero. Quando uma mulher é vítima, ela reflete por várias lentes. Vão realmente achar que sou uma vítima?”
Ao longo do debate, as participantes reforçaram que o enfrentamento à violência contra a mulher exige ações articuladas e permanentes. Para Fayda Belo, uma das medidas fundamentais é ampliar os investimentos públicos destinados à proteção das vítimas, com mais delegacias especializadas, efetivo, estrutura e políticas capazes de prevenir novos casos de feminicídio e garantir acolhimento às mulheres.
Ao final do painel, Luiza Brunet, Fayda Belo e Cristina Ranzolin receberam a Chave da Cidade da Advocacia, em reconhecimento à contribuição para o debate e à defesa dos direitos das mulheres. Em seguida, foram calorosamente aplaudidas pelo público e atenderam dezenas de participantes para fotos, encerrando um dos encontros mais marcantes da quinta edição da Cidade da Advocacia.
O evento segue até sábado (8/8) no Cais Embarcadero, em Porto Alegre. A programação completa da 5ª edição da Cidade da Advocacia pode ser consultada no site https://cidadedaadvocacia.com.br/.
Fonte: Critério
Foto: Sabrina Gabana/ Divulgação
